12.21.2004

9º Capítulo: História da Tuna em Portugal - 2ª parte.

Após o final dos anos Oitenta, inícios de Noventa, temos o surgimento de inúmeras Tunas e, consequentemente, de certames de carácter competitivo, quando até aí poucos com esta natureza existiam, por oposição aos espectáculos meramente demostrativos, sem carácter competitivo. Não será alheio ao dito "boom tunante" uma situação que se prende com a alta taxa de natalidade de inícios dos anos Setenta, que originou um afluxo grande de jovens em idade de ingresso ao Ensino Superior em meados de Noventa, coíncidindo, por razões que se prendem com o ambiente político e social do país de então, com o advento do Ensino Superior de carácter privado, a par com o de carácter estatal, aumentando, por tal a oferta face à procura dos jovens de então. Terceiro factor já referido para o surgimento em força das Tunas em Portugal foi, sem dúvida, o advento do restaurar das Tradições Académicas em algumas Academias, após período de obscuridade e mesmo hostil às mesmas.

Todos estes factores, aliados e ou em separado, contribuiram fortemente para o forte incremento do fenómeno Tunante em Portugal, como forma de afirmação Académica e Praxística, para lá de cultural e lúdica. Recorde-se que, na época, a Tuna espanhola tinha uma imagem muito positiva no seio da comunidade tunante nacional, um modelo a seguir por algumas e que, muitas vezes, era uma tuna espanhola a "inevitável" vencedora dos certames competitivos de carácter internacional que ocorriam em Portugal nesta época, pois davam os 1º s passos as Tunas nacionais, por oposição a um repertório clássico espanhol de 500 anos bastante divulgado a até enraízado na cultura popular e estudantil espanhola. É no advento do "boom tunante" que surgem muitas das Tunas de referência nacionais, um pouco por todo o país mas com destaque para os grandes centros urbanos onde existia ensino superior - Coimbra, Porto, Lisboa, Aveiro, Braga, Viseu.

Os repertórios musicais centravam-se então, na linha do dito no capítulo anterior, sendo que se começa a denotar a influência de várias estéticas musicais ao longo da 1ª metade da década de Noventa, nomeadamente a música clássica e o bolero, para lá das já atrás referidas, musica popular portuguesa, temas de cariz académico, marchas de época (anos 20, 30, 40 e 50) e adaptações ou mesmo versões de temas espanhoís ou sul-americanos, mais tarde. De lembrar aqui por justiça e mérito a inovação resultante da introdução do Fado de Lisboa em "ambiente de tuna", da qual a Tuna do Instituto Superior Técnico de Lisboa foi o seu expoente máximo, sem hipotecar a Tuna nas suas premissas históricas. Também recordar a realização do único programa exclusivamente dedicado a Tunas até à data de hoje e transmitido em sinal aberto pela Rádio Televisão Portuguesa, numa propaganda do fenómeno Tuna junto da sociedade em geral que, infelizmente, não teve repetição, restando o impacto que obteve mesmo nas gerações vindouras.

Em meados de 1995, o "boom" termina, por força de vários factores (como por exemplo, o fim do ciclo de uma licenciatura de 5 anos de muitos dos Tunos) e passa-se à fase actual, sobre a qual tecerei considerandos em capítulos posteriores. Contudo, é de dizer que nesta fase do fenómeno tunante nacional, não isenta de alguns excessos e desvios sempre pontuais, foi denominador comum o respeito pelas Tradições Académicas, pela arte do Negro Magistério, pelo Trajar em respeito de acordo com as premissas de cada Academia/Tuna e, acima de tudo, por um partilhar de ideias e um respeito entre pares, o que, actualmente, não acontece. Mais à frente me debruçarei sobre esta matéria.

Nota: Devo referir que apenas abordo, no âmbito deste blog, o fenómeno Tuna Universitária e/ou Académica.

8º Capítulo: História da Tuna em Portugal

Nestas coisas, o melhor a fazer é ir à fonte e resumir o melhor possivel, de forma a ficar clara a raíz histórica do fenómeno Tunante em Portugal, que eu considero dividida em duas partes, a 1ª o surgimento e a 2ª o seu ressurgimento. Assim, deixo extractos dos sites do Orfeão Universitário do Porto e da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra, para lá de outros textos elucidativos:

"Datam do século XIX as primeiras notícias da Tuna Académica do Porto. Em 1891 a Tuna Académica do Porto, sob a direcção de Raul Laroze Rocha, apresenta-se em Salamanca e Madrid. Mais tarde, no Carnaval de 1897, realiza nova digressão a Espanha, apresentando-se em Santiago de Compostela, sob a regência de Carlos Quilez. Em 1899, participa nas comemorações do primeiro centenário do nascimento de Almeida Garrett, sob direcção de Henrique Carneiro. Passado um ano, em Janeiro de 1900, a Tuna instala-se na rua dos fogueteiros e da regência encarregam-se, sucessivamente, os maestros Sousa Morais e Costa Carregal. Apresenta-se em Março, perante a Academia do Porto, e efectua vários recitais em Lisboa. Em 1902 visita a Galiza, onde mais tarde tornará, em 1909, já sob a direcção de Prazeres Rodrigues. Faziam parte do reportório, entre outros, a "Serenata de Gounod", A Gioconda e Entreacto da "Carmen". Em 1913 a regência passa para Marcos António da Silva. Entretanto é criado a 6 de Março de 1912 o "Orpheon Académico do Porto"."

"Em 1888, após a visita a Coimbra da Tuna de Santiago de Compostela, um grupo de estudantes universitários, que a receberam, teria sido impulsionado a organizar-se como grupo Académico - surgia a Estudantina Académica de Coimbra. "

"A capa da pauta do pasa-calle “Amor da Pátria”, “Brinde aos Académicos do Porto” (referência ao movimento do Ultimatum), de Eduardo da Fonseca, apresenta um desenho com vários estudantes, de Capa e Batina...As fotografias da Tuna de 1897 e 1909 e um desenho de tunos (?) de 1902 mostram os tunos de Capa e Batina." (in Porto Académico )

"Refira-se que Reis Santos foi também regente da Tuna Académica (Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 33)"

"... Entre essas homenagens tomaram certo vulto as realizadas na Galiza onde poetas e prosadores vibraram com a apresentação da nossa tuna. Apenas para mostrar o valor destas embaixadas académicas de que Modesto Osório era apaixonado, lerei uma poesia que José Maria de la Fuente, escritor galego, publicou no jornal Diário de Galicia, de 1 de Maio de 1924, sob a epígrafe «GALICIA e PORTUGAL»"


Para lá de outros textos exemplificativos que existem, estes mostram de forma clara que a Tuna é um fenóneno secular, embora mais recente em Portugal do que em Espanha. Fica claro também que há dois períodos distintos na História tunante nacional, aquela que chamei de Surgimento, composto por períodos mais ou menos obscuros de actividade tunante e a que refiro depois como Ressurgimento, de que passo a referir algumas passagens de outros tantos textos:


"Em meados de 80 (Séc. XX) os orfeonistas que interpretavam os "Amores de Estudante" no fim dos saraus do OUP, retomam, sob a inspiração de Tozé Vasconcelos e José Frias, que viria a ser Magister, a Tuna Universitária do Porto. Em 1987 desloca-se a Burgos, Espanha, tendo conquistado o prémio de Tuna Mais Original. Coincidindo com as comemorações dos 75 anos do OUP realiza-se o I FITU, Festival Internacional de Tunas Universitárias "Cidade do Porto". Estes dois acontecimentos são responsáveis pela explosão de tunas e festivais que entretanto se verificou no nosso país. É composto o tema "Ondas do Douro" e a Tuna, sob a direcção de Eduardo Coelho, grava em 1991 o LP "Acordes, Harpejos... Tainadas e Beijos".

"A Tuna Académica da UTAD é uma Tuna mista que surgiu em Maio de 1983, quando alguns jovens alunos desta Universidade (na altura ainda Instituto Politécnico) se reuniram, tendo em comum o gosto pela música e pelo convívio.Desde logo se optou por um reportório de música popular, essencialmente Transmontano, que provinha do Cancioneiro do Rio d'Onor, característica ainda hoje marcante nesta Tuna. A recolha era feita pelos próprios elementos que, para tal, se deslocavam ás aldeias dos vários Concelhos Transmontanos e pediam às pessoas mais idosas que lhes cantassem as musicas da sua terra. Exemplo disso é a famigerada música "Mulher Gorda", que foi recolhida na zona de Alijó. Neste reportório contam-se ainda músicas recolhidas na zona de Miranda do Douro, cantadas em dialecto Mirandês, e ainda músicas típicas da região do Douro. Numa fase posterior começou a conjugar-se as músicas populares com letras de cariz universitário (leia-se, académico), uma vez que o Ambiente Académico começava a fervilhar nesta cidade. Esta mistura do popular e académico resulta numa perfeita simbiose, ainda aliada à cultura, na qual consiste a riqueza desta Tuna.Para além da música (e dos copos), o traje é também vincadamente transmontano, já que é inspirado no traje de gala mirandês. " (in Site da Tuna Académica da UTAD )


"Nasce a 7 de Novembro de 1988. O Rio Douro, os barcos rabelos, os monumentos, as ruas, o ressurgir das Tradições Académicas, fazem com que a Urbe reconheça o seu peso histórico, Berço ideal para que, inspirados pelo romantismo e beleza da Cidade Invicta, se concretize um velho sonho: a Tuna de Engenharia da Universidade do Porto." (in Site da Tuna de Engenharia da Universidade do Porto)

"Corria o ano de 1984 quando a 15 iluminados, entre copos e pevides, ocorreu a lembradura de recuperar o espírito da “velha” Estudantina Académica de Coimbra no seio da Secção de Fado.
Foi assim que uns tempos antes do que viria a ser um grande sucesso no Sarau da Queima das Fitas de 1985, subiu ao palco pela primeira vez, em terras de Póvoa do Lanhoso a Estudantina Universitária de Coimbra da Secção de Fado da A.A.C., o primeiro grupo do género a ressurgir em Portugal. " (in
Site da Secção de Fado da A.A.Coimbra)


"A Tuna da Universidade Internacional foi fundada em Dezembro de 1988 com a intenção de fomentar a amizade entre colegas de cursos e anos diferentes..." (in Site da Tuna da Universidade Internacional)

Conclusões pacíficas a reter desde já; Estamos perante as 4 tunas mais antigas de Portugal, todas elas anteriores à década de 90 do Século passado; Todas elas eram, então, mistas excepto a Estudantina Universitária de Coimbra, umas assentes num prisma popular, outras num prisma menos popular ou, se quisermos, mais influenciado pelo fenómeno tunante espanhol.

Aqui termina a 1ª fase do Ressurgimento Tunante, sendo que, em meados dos anos Noventa do Século XX, dá-se aquilo a que se chamou de "boom tunante" em Portugal, começando a 2ª fase do Ressurgimento Tunante português, com a fundação de inúmeras Tunas, reformulação da natureza de outras já existentes (de mistas a compostas exclusivamente por um só sexo) e à fundação de raíz de Tunas Femininas e Mistas, um pouco por todo o país.

Nesse fim de década de Oitenta, início de Noventa, torna-se clara a existência de duas "vias", duas "linhas" musicais, uma dita "à Porto", influenciada claramente pela postura das tunas espanholas e que a Tuna Universitária do Porto adopta, nomeadamente na postura dos pandeiretas, o "tocar de pé" abanando as suas filas, o Estandarte ondulante e, claro, na musicalidade, aliás, como sempre aconteceu ao longo da história do O.U.P e da Tuna Universitária/Académica/do Orfeão Universitário do Porto, conforme se pode facilmente constatar. Esta forma de tunar foi claramente "seguida" e adoptada pelas Tunas da Academia que se iam, entretanto, fundando no Porto a um ritmo alucinante.
A 2ª linha é a dita linha "Coimbrã", mais popular portuguesa pela adopção de instrumentos populares portugueses - onde o bombo foi imagem de marca - e não adopção de alguns iténs importados da tuna espanhola, linha essa que influencía claramente as restantes tunas nacionais, no seu começo, exceptuando Porto e Braga, esta última com uma linha musical também ela própria, então, distinta da sonoridade "à Porto" e claramente distinta da sonoridade "Coimbrã".
Na componente lírica dos temas de então, eram normais as alusões à vida estudantil quer no Porto quer em Coimbra, bem como as Serenatas e a sua lírica própria, com particular destaque para Coimbra. Por "sofrer"influência espanhola, no Porto a adaptação de temas foi mais preemente, já em Coimbra o original ou tema popular assumiu primazia.

De forma clara e por tudo o atrás escrito, resulta claro que, no Ressurgimento do fenómeno Tunante nacional, quem assumiu papel de destaque pelo sucessão de acontecimentos - e não se pode esquecer o peso das respectivas Academias, em pleno fervôr do restaurar de Tradições Académicas e da Praxe - foram as Academias de Coimbra e Porto, pelas mãos da Estudantina Universitária de Coimbra e Tuna Universitária do Porto. Em Lisboa, a Tuna da Universidade Internacional marca o pioneirismo da Tuna enquanto fenómeno agregador Tradicional, antes de qualquer outra. Marca comum a todas elas e de enorme relevo, são Tunas que surgem fundadas no Academismo e na Praxe, então, e não grupos surgidos por outras motivações.

7º Capítulo: A aprendizagem

A Tuna é hierarquizada também por motivos históricamente explicáveis; os Sopistas, chegados às cidades onde existiam "Estudos Gerais", procuravam guarida, albergue que os acolhesse. Logo, os estudantes Sopistas se juntavam e de forma hierarquizada, viviam em casas comunitárias - à imagem das Repúblicas - onde a hierarquia servia o normal andamento e manutenção da casa. Daí a hierarquia ser vincada numa Tuna, forma de manter os traços históricos da vivência tunante e forma de garantir a sucessão na Tuna. Os extratos da Tuna são claros e o período de aprendizagem serve os mesmos mas com um único propósito, servir a Tuna.


6º Capítulo: O Certame ou Festival

O Certame ou Festival tem raízes históricas, ao contrário do que se poderá supôr, no caso, raízes que assentam na Idade Média e nos chamados "Jogos Florais" que premiavam com flores - daí o nome - os melhores versos e as melhores canções. O Certame em Espanha assume contornos distintos do certame em Portugal, posterior no tempo, apesar de existir uma base comum em ambos os casos.
O certame ou Festival é um encontro (periódico ou pontual) onde as Tunas se reúnem para partilhar experiências e conviver durante uns dias, sendo um pretexto para que as Tunas viajem, ao mesmo tempo.
Surgiram como pontos de encontro e de convívio mas hoje, o sentido estritamente musical tomou de assalto muitos deles, tornando-os não em certames ou festivais de tunas mas em espectáculos de música universitária, coisas distintas. Mais à frente abordarei esta questão, na certeza que, paradoxalmente, é uma das características históricas da Tuna - o Certame - hoje, a principal causa do seu enfraquecimento enquanto fenómeno cultural único.

5º Capítulo: O carácter migrante da Tuna

A Tuna, na sua génese, tem de facto, premissas históricas que a tornam numa espécie de "embaixadora itenerante" de uma cultura sempre própria.

" Pasaba en el desorden de los viajes muchos días y, por la noche, era el primer convidado a los bailes, los saraos y las bodas de todas castas. Entretenía a los circunstantes con la variedad de muchas bufonadas y tonterías, que se dicen vulgarmente habilidades, y aventajaba en ellas a cuantos concurrían en aquellos tiempos a reclamo de tales holgorios y funciones. ". (Diego de Villarroel).

Fruto desse carácter migratório da Tunas no passado e desta em sí mesma Tradição de uma Tuna, tal originou mesmo o despoletar da criação de Tunas um pouco por todo o mundo até. Sendo originárias de Espanha e pouco depois Portugal, as Tunas como grupos eminentemente universitários, deram-se a conhecer graças a essa migração. Aliás, nada de novo, como se pode ver em capítulos anteriores, sendo que os Goliardos tornam-se em Sopistas precisamente por via das migrações a caminho dos "Estudos Gerais" existentes na Península Ibérica. Concluí-se, portanto, que uma Tuna se distingue de um qualquer outro grupo de carácter universitário também (mas não só) pelo seu carácter migratório. Levar a cultura universitária e Tunante a outras partidas é, obviamente, fundamental para a manutenção e prossecução da mesma.

4º Capítulo: A Noite

A Noite revelou-se, desde sempre, a mais fiel cumplice do Tuno e da Tuna. Ficam estes pequenos textos históricos que mostram de forma clara isso mesmo e a importância do contexto nocturno na vivência estudantil e, mais especificamente, Tunante.

" Verás cómo se va desnudando aquel hidalgo que ha rondado toda la noche, tan caballero del milagro en las tripas cómo en las demás facciones, pues quitándose una cabellera, queda calvo; y las narices d e carátula, chato; y unos bigotes postizos, lampiño; y un brazo de palo, estropeado; que pudiera irse más camino de la sepoltura que de la cama.". (El Diablo Cojuelo)

" Y como en otras partes hay hora señalada para oración, la tenemos nosotros para remendarnos. Son de ver, a las mañanas, las diversidades de cosas que sanamos; que, como tenemos por enemigo declarado al sol, por cuanto nos descubre los remiendos, puntadas y trapos...". (El Buscón)

Percebe-se facilmente a lógica da Capa negra do Estudante e, logo, do Tuno, a fim de se misturar com a noite de forma subtil. A vivência Tunante é feita, grande parte, da noite mas desta noite boémia, desta noite de "rua", de calle, de janelas e varandas. Lamentavelmente, rareiam estas noites sendo que a noção de "noite" actualmente se resume a um espaço fechado com décibeis incapazes de deixar, sequer, espaço à conversa...

3º Capítulo: A Serenata

"La Ronda se podía definir como el espontáneo canto de ensueño ante unos ojos arrebatadores; es la prueba de amor ante el cariño de una madre y es también la prueba de fervor ante nuestra Patrona. Y en todas e llas la Mujer es la inspiración, el motivo y el objeto de nuestras canciones y requiebros.

La Tuna se debe a la Mujer, Mujer con mayúsculas. Es su esencia y su fin último, con ella nace, y sin ella no tiene sentido. "

Mesmo estando em Castelhano, penso ser mais que perceptivel e claro. A Serenata é a base, o pressuposto, a lógica da fundação e manutenção de uma qualquer Tuna que se intitule e pratique os "rituais" Tunantes. A Mulher, em sentido lato, é a razão da existência da Tuna, sendo uma das características históricas que, independentemente do tempo e lugar, permanecerão assim se queira, pois o romance, conquista, amor, são eternos, não carecendo de mais alguma premissa exterior. O que impede fazer uma Serenata hoje tal qual se fazia noutros tempos? Somente a nossa vontade.

Concluímos, assim, que a Serenata é um traço distintivo entre uma Tuna e outro qualquer agrupamento. Isto é claro e a meu ver, não carece de contestação.

2º Capítulo: O Sopista ou o "estádio pré-Tuno"

Não perdendo de vista o anterior capítulo, temos aqui, em espanhol, a definição daquele que se considera como o estádio anterior ao Tuno, retirado do site da Tuna de Ingenieros de Telecomunicación de Valência:


"En el año 1.212, bajo el reinado de Alfonso VIII, se fundó en Palencia el primer "Studium generale", precedente de lo que más tarde serían las Universidades. A estos Estudios Generales y a los que sucesivamente se crearon, acudían jóvenes de toda condición entre los que surgieron los SOPISTAS, predecesores de los actuales tunos.
Los sopistas eran estudiantes pobres que con sus músicas, simpatía y picardías recorrían figones, conventos, calles y plazas a cambio de un plato de sopa (cosa que les otorgó el nombre) y de unas monedas que les ayudaban a costear sus estudios. Cuando anochecía y una vez sonaba la campana de queda o recogida, salían a rondar los balcones para enamorar a las féminas que pretendían. Recibían el nombre de sopistas porque de ellos se decía que vivían de la sopa boba; siempre iban provistos de cuchara y tenedor de madera, lo que les permitía comer en cualquier lugar donde se les presentaba la ocasión. Estos cubiertos de madera eran distintivo de los sopistas, siendo en la actualidad símbolo de todas las Tunas Universitarias.
Era esta la versión española de un fenómeno generalizado en toda Europa durante la Edad Media y que se conoció con el nombre de Goliardos, los cuales representaban la bohemia universitaria viviendo como juglares y trovadores."

Mais que enumerar uma série de obras que falam dos Sopistas e sua vivência, retirar conclusões práticas: O Sopista é a versão espanhola do Goliardo e predecessor do Tuno tal qual é conhecido; música, simpatia, picardia, amor, subsistir, eís os traços históricos do Tuno. Adaptar tudo isto aos dias de hoje, não sendo "fotocopiado" em sentido literal, é fundamental, no sentido de distinguir o Tuno de um outro qualquer estudante universitário, porque o Tuno é, de facto, distinto entre pares. O Estudante, mesmo hoje, é remediado, enamora-se, é dado à boémia académica. O Tuno é tão somente a face mais prática e visível de todas estas características.

Ao adaptar esta noção aos dias de hoje e ao actual cenário das tunas nacionais, não posso deixar de reparar na imensa falácia e embuste que algumas ditas de "Tunas" encerram, enganando muitos sob a capa do nome "Tuna" quando, efectivamente, não o são. Em capítulos posteriores abordarei esta questão.

12.20.2004

1º Capítulo: A origem da música Goliarda

Curiosa a definição encontrada no site da Universidade Aberta, sobre a História da Música Portuguesa e na parte relativa à Música de origem profana:

"Os mais antigos espécimes de música profana que se conhecem são canções com textos latinos, conhecidas como "canções dos goliardos", dos séc. XI e XII.
São canções monofónicas (monodias) que se pensa haverem sido cantadas por estudantes ou por clérigos ambulantes.
Um outro tipo de canção monofónica era o "conductus" (séc. XII e XIII).
Os "conductus" poderão ter sido cantados nos momentos em que um clérigo ou outro membro representando um drama litúrgico se deslocavam de um local para outro (conducto = conduzido).
O "conductus" representa, à época, a fragilidade da fronteira entre música sacra e música secular, uma vez que era utilizado indistintamente tanto em actos religiosos como em festas seculares, utilizando-se o termo "conductus" para qualquer canção latina, quer sagrada quer profana.
As "Canções de Gesta" são, por sua vez, um dos tipos mais antigos de canção que se conhece em língua vernácula.
Cantadas pelos jograis, versavam os feitos dos heróis e eram transmitidas oralmente (a "Canção de Rolando", datada da segunda metade do séc. XI, é a mais famosa das "canções de gesta").
Com origem no Sul de França, surgem, mais tarde, as cantigas trovadorescas.
Escritas inicialmente em provençal (langue d'oc), inspiravam-se na cultura mourisca hibérica e difundiram-se não só para a Península Ibérica como para outras regiões, tais como a região de Champagne e a Artésia (Alemanha).
Admite-se que o termo "trovar" tenha origem em "tropar" isto é, realizar "tropos". Estes, tal como as anteriormente referidas "sequências", derivando da prática eclesiástica, consistiam em intercalar melodias nos textos litúrgicos.
As cantigas trovadorescas tiveram uma importância particular no nosso território durante um período temporal relativamente extenso (de João Soares de Paiva, 1140, primeiro trovador galaico-português de que existe referência, a D. Pedro, Conde de Barcelos, 1374, o último)."

Concluí-se por tal, da importância da música profana e no caso específico, de origem Goliarda na Península Ibérica, com clara influência posterior naquilo a que se chamou de "Tuna". Ou seja, a Tuna de facto tem origens musicais claras na música profana dos Séculos XI e XII. Mais que isso, a música de origem trovadoresca é importante enquanto génese da musicalidade tunante, seja em Espanha ou em Portugal, como se percebe atrás.

Prefácio: Porquê?

Refleti um pouco antes de inaugurar este blog, por uma série de circunstâncias, devo confessar. Contudo, penso que está na altura correcta, a meu ver, para criar um espaço próprio de reflexão pessoal, sobre o que vai ocorrendo no mundo das tunas em Portugal e estrangeiro.
A Tuna, esse parente pobre e tão atacado a espaços por muitos prismas da vida social portuguesa, mas que persiste no tempo e no espaço. Serve também este blog para que possa, de alguma forma, prestigiar um pouco mais que seja, a Tuna, enquanto manifestação unica na vivência universitária portuguesa, quer protejendo-a dos cada vez mais frequentes "ataques" exteriores mas principalmente, protejendo-a daqueles que usam o seu nome, prestígio, usos, costumes, trajar, etc para a denegrir. É este blog o meu espaço de defesa de uma Tradição secular que urge a cada passo preservar. Por ser meu, perdoem-me o "egoísmo" mas não terão as minhas reflexões "direito de resposta", apenas e só porque entendo que esse "direito" rapidamente deixaria de o ser e passaria a ser um "vício" para alguns, certamente, não crio este blog com tal missão. Quero deixar claro apenas a seguinte ideia: São reflexões pessoais tão só, que se baseiam em factos históricos, coisas que são claras, textos existentes, em suma, naquilo que FOI e É uma Tuna, sem qualquer adulteração ou omissão dos mesmos. Procurarei, partindo das premissas atrás enunciadas, demostrar que há quem se diga uma Tuna nada dela tendo, mostrando ou praticando. Daí a razão do nome deste espaço, Novos Goliardos. Seguirá este blog uma lógica por capítulos, sendo os 1ºs um repositório de factos sobre a Tuna e, após isso, passarei então á abordagem mais pessoal de vários contextos actuais que envolvem o mundo tunante nacional e até internacional.